Seresteiros e Serestas

Serenata, segundo os dicionários é um concerto à noite, ao ar livre, mas também pode ser nome de certas melodias simples e graciosas. Não se trata propriamente de um modalidade musical, mas de uma forma interpretativa ou de um conjunto instrumental destinado a acompanhar pelas ruas e estradas um cantor solista.

Seresta é como que uma corruptela de serenata e afirmam os autores que foi introduzida entre nós pelos negros e mulatos.

No entanto a palavra serenata vem do castelhano serenada, de serenos, já sendo conhecida em nossa terra desde 1717. É o que se deduz da nota de certo viajante francês que a registrou quando passou pela Bahia. "À noite outra coisa eu não ouvia senão os tristes acordes de um violão. Os portugueses vestidos de camisolões com o rosário a tiracolo, a espada nua debaixo daquelas vestes e armados de violão passavam sob as janelas de suas damas e em tom de voz ridiculamente terna cantavam modinhas que me faziam lembrar a música chinesa ou as nossas "gigas" da Baixa Bretanha.

Como vemos a mania das serenatas já era da terra quando os negros e mulatos entraram a imitar o branco com o jeitinho todo especial de interpretação que se transformou em seresta. Não se deve pensar numa influência "jazz" nas nossas serenatas pois aquelas são muito mais antigas que esse em terras brasileiras, embora a formação instrumental e o processo de composição (improvisação livre) com o contracanto tão do gosto brasileiro.

As serestas eram realizadas nas ruas, estradas e praias quase sempre para despertar alguém que se tornara preferida em amores, em noites de lua, quando havia poesia e lirismo e a idéia de ir à lua era coisa que não entrara ainda nas nossas cogitações. Foi desse hábito das serestas que surgiu o seresteiro de voz possante e extensa para encher o espaço de melodias que deviam ecoar longe. Dessa classe de cantores da noite ficou-nos Vicente Celestino e já se foi para sempre Augusto Calheiros, o Patativa do Norte.

As serestas e os seresteiros de antigamente foram muitos perseguidos pelos mandantes da época. Na verdade houve tempo que cantar ao sereno e tocar violão era coisa de capadócio, crime que devia ser punido severamente.

Em ofício dirigido ao senhor ouvidor, o famoso Vidigal, comandante da polícia do Rio de Janeiro ao tempo de dom João VI assim apresentava um acusado de serenata: "... e se v. exa. ainda tiver dúvidas quanto à conduta do réu, queira examinar-lhe as pontas dos dedos e verificará que ele toca violão. A verdade é que havia e houve até o nosso século uma verdadeira perseguição a serestas e seresteiros.

Sempre houve porém uma grande diferença entre o seresteiro da cidade e o seresteiro, digamos assim, do interior. Na cidade sempre se cultivou a modinha enquanto no interior os trovadores eram outros, trovas mais líricas e apaixonadas, mais puras e ingênuas, mais doces e sinceras. De fato pelos títulos das modinhas de talvez um século atrás, pode-se fazer uma idéia do estado emocional do povo daquela época: Tive amor, fui desditoso, Do ciúme atroz veneno, Tristes as negras saudades, Ô, parca tirana, parca, Sem ciúmes, sem suspeitas. Havia muita pieguice, muito sentimentalismo exagerado nas interpretações. Mas, o trovador de serestas, negro ou mulato, desabrido e desordeiro também cantava lundus e fandangos e por que não fados se querem muitos que ele tivesse ido do Brasil para Portugal?

Desse tempo distante chegou-nos a fama de um certo mulato Joaquim Manuel, talento musical extraordinário. Exímio tocador de violão, popularizou entre nós o cavaquinho. De Freycinet ouviu-o e deixou registrado no seu livro, que "Joaquim Manuel era um cabra tão cuéra no violão que deixava longe qualquer guitarrista europeu". Pernóstico e vaidoso em extremo Joaquim Manuel só cantava suas produções, que só por isso não tiveram maior divulgação, embora fossem editadas em Paris. Tão antipático era esse mestiço trovador que mereceu de Bocage o achincalhe de um soneto satírico. Mais ou menos da mesma época foi outro trovador — seresteiro que o povo alcunhou de "poeta guri".

Ficou na história da cidade por ter evidenciado numa crítica impiedosa desabusada mesmo a paixão dizem que platônica do vice-rei dom Luís de Vasconcelos por uma moreninha, a Suzana da rua das Belas Noites (antiga Marrecas) e que involuntariamente concorreu para a construção do nosso Passeio Público.

Com dom João VI a música popular não progrediu muito, não que o grande rei concorresse para isso, mas a religiosidade do tempo fez com que os artistas se voltassem mais para a música erudita e sacra. Já com dom Pedro I, a seresta e os seresteiros tiveram sua época. Dom Pedro I era um apaixonado pela noite e embuçado na sua capa preta e chapéu desabado, ia com o Chalaça cantar em serenatas terminando as pândegas no botequim da Corneta ou na casa de Domitila. Ainda no tempo de Regência, o gosto pelas serestas era bem pronunciado e havia seresteiros famosos, não só de modinhas, mas também de cantigas que se fixaram na época. Um lundu muito cantado pelos seresteiros como desabafo político foi, sem dúvida, o Mãe Benta nome de uns docinhos que vêm atravessando o tempo e que chegou a nossos dias. Eram feitos pela preta Mãe Benta para o cafezinho da merenda do Padre Feijó.

— Mãe Benta, me fia um bolo?

— Não posso senhor, Tenenta,

Que os bolos são de Iaiá Não se fiam a toda gente.

Quanta malícia não havia nessa quadrinha ingênua, assim de relance.

Com Dom Pedro II, houve uma verdadeira ressurreição das serestas e conseqüentemente dos seresteiros. Ficou na história da cidade o Anselmo, o maior seresteiro daquele tempo, exímio violonista da época, famoso pelo seu vastíssimo repertório, diziam que era capaz de cantar uma noite inteira sem repetir música cantada.

A [Patalógica] do Rocio Grande não era apenas o centro de literatos da escola de Machado de Assis, mas também trovadores, seresteiros e poetas. A lira melancólica e a sátira irreverente de Laurindo Rabelo eram musicadas por ele próprio ou pelos nomes mais em evidência entre os compositores da época. Daquele tempo é o Gosto de ti, por que gosto que Sátiro Bilhar cantava no tempo de Catulo, dizendo-se o autor. Os versos, não há a menor dúvida, são de Paula Brito e a música parece que composta pelo Cunha dos Passarinhos, compositor muito querido no beco do Cotovelo. O maior seresteiro do século XIX foi Xisto Bahia, que sem saber música compôs verdadeiros sucessos, cujo maior foi, sem dúvida, Quis debalde varrer-se da memória...

As serestas e os seresteiros entraram pelo século XX com toda força de seu entusiasmo e muitos deles deixaram nos seus trovares verdadeiras jóias da música popular do Brasil.

("Serestas e Seresteiros" foi primeiramente publicado por Marisa LIRA no "Diário de Notícias" do Rio de Janeiro, Brasil, de 01 de dezembro de 1957. Documento extraído da edição on line http://jangadabrasil.com.br/revista/outubro83/fev83010a.asp-17k)

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